Comissária viaja por estados para estocar remédio de epilepsia do filho; medicamento deixará de ser vendido
07/10/2026
(Foto: Reprodução) Vinhedo (SP): mãe comissária viaja por estados para estocar remédio de epilepsia do filho que deixará de ser vendido
Reprodução/EPTV
A comissária de bordo Thais Jucá, de Vinhedo (SP), aproveita as viagens de trabalho para visitar farmácias em outros estados e comprar um remédio para epilepsia que deixará de ser comercializado no Brasil.
Com medo de interromper o tratamento do filho de 4 anos, ela e o marido, o engenheiro elétrico João Jucá, conseguiram reunir quase 50 caixas do medicamento Depakote Sprinkle em pouco mais de um mês.
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A corrida da família pelo produto começou após a farmacêutica Abbott notificar que a fabricação e a importação do remédio seriam encerradas definitivamente em 2026 por motivações comerciais (veja a nota abaixo).
A maior dificuldade enfrentada pelos pais é a falta de opções no mercado nacional com o mesmo formato de administração, chamado de "sprinkle". O medicamento é essencial para crianças ou pessoas com dificuldade de engolir porque:
é composto por microgrânulos armazenados dentro de cápsulas;
pode ser aberto para que os grânulos sejam misturado a alimentos pastosos, como iogurte;
evita a necessidade de ingestão de comprimidos grandes, que não podem ser mastigados ou triturados.
"Fomos procurar algo alternativo e não tem no Brasil esse tipo de administração de remédio, que são microgrânulos. Ele é pequeno, ele não engole um remédio, existe uma alternativa, só que a alternativa é um comprimido grande. Ele não pode ser mastigado, ele não pode ser dissolvido", relata João.
Risco no tratamento
Depakote Sprinkle: família de Vinhedo (SP) estoca medicamento para epilepsia que será descontinuado
Reprodução/EPTV
Para evitar a descontinuidade dos tratamentos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determina que a fabricante mantenha o mercado devidamente abastecido pelo período de 12 meses. Apesar de terem garantido o remédio para um ano, João e Thais esbarram na data de validade dos produtos estocados e aguardam uma solução.
"Desesperador, porque você já passa por todo o diagnóstico, pela internação, pela UTI, pelo desespero de ter o filho nessa situação que a gente não imaginava. E aí quando você encontra uma saída, quando as coisas vão voltando ao normal, a rotina, você fala, eu tenho meu filho de volta? Não tenho. É muito difícil", desabafa Thais.
A mudança abrupta na medicação de pacientes com a doença controlada pode trazer riscos. O neurologista Willian Ferreira, do Vera Cruz Hospital, alerta que a adaptação do paciente envolve a tolerabilidade ao formato exclusivo. "O ideal é procurar uma avaliação precoce com o neurologista que acompanha para definir um novo plano terapêutico", orienta.
"[No caso do Depakote] o grânulo dessa substância fica armazenado dentro dessa cápsula, então é passível de a gente partir essa cápsula e administrar junto a um alimento pastoso, um iogurte, então facilita muito bem essa questão da adesão também do paciente, principalmente nessa faixa etária mais pediátrica das crianças".
"A forma como o paciente se adapta com a medicação, não é apenas o mecanismo de ação, a substância em si, mas a tolerabilidade principalmente. Existe uma série de questões de tentativas prévias do paciente, às vezes o paciente não tolerou a formulação cápsula, então isso acaba realmente trazendo uma série de inseguranças para os pais", completa o médico.
O que diz a Anvisa
A Anvisa informou que não possui instrumento legal que impeça os laboratórios farmacêuticos de retirarem seus medicamentos do mercado. Pontuou, porém, que as empresas devem comunicar a descontinuação definitiva ou temporária de fabricação ou importação de medicamentos com pelo menos 180 dias de antecedência, devendo assegurar o fornecimento normal do produto durante esse período.
Por se tratar do único medicamento comercializado contendo um princípio ativo importante, a empresa deverá, manter o mercado devidamente abastecido pelo período de 12 meses. Essa medida tem como finalidade assegurar aos pacientes tempo hábil para a realização de eventuais ajustes de dose ou para a adequada adaptação ao tratamento com seus médicos, evitando descontinuidade terapêutica.
Caso a empresa não cumpra o prazo estabelecido pela regulamentação aplicável, podem ser adotadas as medidas administrativas e legais cabíveis, visando assegurar a continuidade do tratamento e o adequado abastecimento do mercado.
O que diz a farmacêutica Abbott
A farmacêutica Abbott informou que a decisão pela descontinuidade do medicamento não está ligada à qualidade, segurança ou eficácia e que as unidades atualmente disponíveis no mercado podem ser usadas normalmente até o final do respectivo prazo de validade.
Disse ainda que pacientes e familiares que tiverem dúvidas sobre o tratamento devem conversar com seus médicos sobre alternativas terapêuticas disponíveis no Brasil para manutenção do tratamento.
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