Estudo revela diferença crucial entre Covid-19 e gripe no cérebro e nos pulmões
27/02/2026
(Foto: Reprodução) Vírus da Covid-19 altera atividade cerebral a longo prazo após infecção, mostra estudo
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Mesmo depois que a febre desaparece e o vírus já não é detectado no organismo, a Covid-19 pode continuar deixando marcas —principalmente no cérebro e nos pulmões.
Um estudo da Universidade de Tulane, publicado na terça-feira (24) na revista científica Frontiers in Immunology, identificou diferenças importantes entre os efeitos de longo prazo da Covid-19 e da gripe e sugere que apenas o SARS-CoV-2 desencadeia inflamação cerebral persistente.
A pesquisa foi feita em camundongos acompanhados por até 28 dias após a infecção. Embora tanto a Covid-19 quanto a gripe tenham provocado inflamação prolongada e sinais de fibrose nos pulmões, apenas a infecção pelo coronavírus levou a alterações relevantes no cérebro.
“Observamos lesões pulmonares duradouras em ambas as infecções. Mas os efeitos a longo prazo no cérebro foram exclusivos do SARS-CoV-2”, afirma o microbiologista Xuebin Qin, autor principal do estudo.
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Inflamação cerebral mesmo sem vírus detectável
Um dos achados centrais foi que, semanas após a infecção, não havia mais vírus detectável no cérebro dos animais. Ainda assim, os camundongos que tiveram Covid-19 apresentaram:
inflamação cerebral persistente;
pequenas áreas de sangramento (micro-hemorragias);
ativação prolongada de células inflamatórias do sistema nervoso.
Essas alterações praticamente não apareceram nos animais infectados com o vírus da gripe.
A análise da expressão gênica do tecido cerebral mostrou ainda que o SARS-CoV-2 alterou vias relacionadas à serotonina e à dopamina —neurotransmissores fundamentais para o humor, a cognição e os níveis de energia.
Segundo os autores, essa disfunção pode ajudar a explicar sintomas frequentemente relatados por pacientes com Covid longa, como dificuldade de concentração, fadiga persistente, alterações de humor e a chamada “névoa mental”.
ℹ️ Névoa mental o nome dado à sensação de pensamento embaralhado, dificuldade de memória recente, lentidão para processar informações e perda de clareza mental, mesmo após a recuperação da fase aguda da doença.
Diferenças também no processo de reparo pulmonar
Nos pulmões, os dois vírus deixaram um quadro semelhante de inflamação e acúmulo de colágeno, proteína associada à formação de cicatrizes. Essas mudanças podem enrijecer o tecido pulmonar e dificultar a respiração mesmo após a fase aguda da doença.
Mas houve uma diferença importante no processo de recuperação. Após a gripe, os pulmões ativaram mecanismos de reparo mais robustos, com migração de células progenitoras responsáveis por reconstruir o revestimento das vias aéreas. Já na Covid-19, essa resposta regenerativa foi muito mais limitada.
Além disso, a infecção por SARS-CoV-2 manteve ativadas vias associadas à coagulação sanguínea e à inflamação —alterações que também vêm sendo descritas em estudos clínicos com pacientes que apresentam sintomas prolongados.
O que isso significa para a Covid longa
A Covid longa é caracterizada pela persistência de sintomas semanas ou meses após a infecção inicial, inclusive em pessoas que tiveram quadros leves. Entre os sinais mais relatados estão cansaço extremo, falta de ar, dificuldade de memória, insônia, alterações de humor e a chamada “névoa mental”.
O novo estudo ajuda a dar lastro biológico a esses relatos. Ao identificar inflamação persistente, alterações vasculares e disfunções em vias ligadas à serotonina e à dopamina, os pesquisadores reforçam a hipótese de que os sintomas não são apenas subjetivos ou emocionais —mas podem estar associados a mudanças mensuráveis no funcionamento do cérebro.
Embora a pesquisa tenha sido feita em modelo animal —o que exige cautela ao extrapolar diretamente para humanos— os resultados dialogam com estudos clínicos que já identificaram alterações inflamatórias e redução de desempenho cognitivo em parte dos pacientes após a Covid-19.
Na prática, os achados ajudam a direcionar duas frentes.
A primeira é científica: entender quais vias biológicas permanecem ativadas pode orientar o desenvolvimento de terapias mais específicas no futuro, especialmente voltadas para inflamação crônica e regulação de neurotransmissores.
A segunda é assistencial: reconhecer que há mecanismos orgânicos envolvidos pode melhorar o diagnóstico e o acompanhamento desses pacientes.
Hoje, não existe um tratamento específico para a Covid longa. A abordagem é individualizada e focada no controle dos sintomas, com acompanhamento clínico e, quando necessário, suporte neurológico, psiquiátrico, cardiológico ou fisioterapêutico.
Os autores recomendam que pessoas que mantêm sintomas como fadiga intensa, lapsos de memória, dificuldade de concentração ou alterações de humor por mais de quatro semanas após a infecção procurem avaliação médica.
A investigação precoce ajuda a descartar outras causas e a organizar um plano de cuidado adequado.